Archive for Novembro 13th, 2015

13/11/2015

‘Borderline’ mexe com a linha do emocional

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Fenata volta a ter espetáculos na UEPG após dez anos de hiato

A expectativa era alta. Talvez menos com a peça e mais pelo aspecto simbólico do local. A entrada pela Rua Doutor Penteado de Almeida, em frente ao Restaurante Universitário, indicava o caminho para o teatro.

Entre papéis nas paredes e a organização do festival, uma fila tomava por completo um dos corredores do primeiro andar do bloco A. Às 22h35, a porta se abriu. O espetáculo ‘Borderline’ reinaugurou o Auditório da Reitoria como palco do Fenata.

Borderline divulgação

Foto: Divulgação

A peça, por toda a mística, poderia até ser pano de fundo. Não foi. O monólogo fez barulho: gritos, expressões fortes e loucura. Transtorno da mente ou cenário de um hospício?

O palco simulava um quarto branco, com espelho, balanço, cadeira e uma camisa de força presa ao teto. Dois pedaços de pano também chamavam a atenção: eram personagens ou parte deles. Eram delírios, um sonho.

Sentimento, estética e movimento. A simbologia do nome da companhia (S.E.M. Cia de Teatro), que se divide entre as cidades de Natal e Recife, ganha densidade na peça.

Com texto e direção de Junior Dalberto, o espetáculo mostra a vida de um homem com síndrome de Bordeline que se divide entre obsessões, frustrações e conflitos: da vontade incontrolável de sexo e da falta de afetividade às descobertas e dissabores da vida.

O personagem é fruto de uma “camisinha estourada”, na relação entre Cronos, deus da mitologia grega que engolia os filhos para não perder o trono, e Vênus, deusa do amor.

A trama remonta a geração dos anos 1990 cujos pais tiveram acesso a novas tecnologias e a formas de prevenção de doenças e da gravidez.

Com uma história fruto do acaso e do descaso, o monólogo explora pais ausentes. A narrativa traz as lembranças da infância sádica e da juventude marcada por histórias de bipolaridade.

O personagem é responsável indireto pela morte de parte da família. Após engravidar a irmã, ela se mata, enquanto a mãe, uma mulher com excesso de peso, entra em profunda depressão e morre por infarto.

As lembranças se passam pela cabeça do homem que sempre demonstra forte lado sentimental. Experiências com pessoas do mesmo sexo, com travestis e mortes são detalhes de aventuras reprimidas simbolizadas pela metáfora de um homem preço a uma concha.

O ápice da peça se dá quando o homem retorna para casa, em meio à confusão dos delírios. Ele, que precisava se abrir, sair da concha, decide contar ao pai tudo o que mantivera reprimido por anos. O personagem abraça, então, a cadeira que personifica a figura paterna. Por meio desse gesto, ele se liberta. Afinal, ele só queria ser livre; só queria voar.

Serviço

Espetáculo: “Borderline”
Autor: Junior Dalberto
Direção: Junior Dalberto
Grupo: S.E.M. Cia de Teatro – Sentimento, Estéticas e Movimento
Cidade: Natal – RN
Local: Auditório da Reitoria – Campus Central UEPG
Duração: 60 minutos
Classificação: 16 anos

Vitor Carvalho

13/11/2015

A luz que incomodou pela falta

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Cenário da capital carioca é tema de peça que mistura, com equilíbrio, comédia e drama

A abertura do 43º Festival Nacional de Teatro (Fenata) trouxe a peça ‘Paraíso Zona Sul’, com apresentação do Grupo Fragmento do Rio de Janeiro. O texto é de autoria de Jô Billac, um dos maiores dramaturgos do teatro nacional. A direção é de Nirley Lacerda.

A mistura de gêneros, drama e comédia, trouxe equilíbrio à peça. O elenco é composto por cinco integrantes: Ana Carolina Dessandre, Carolina Ferman, Diogo de Andrade Medeiros, Elio de Oliveira e Monique Vaillé. O enredo conta seis histórias independentes que têm um ponto em comum: personagens que são moradores da zona sul carioca.Divulgação

Foto: Divulgação

O cenário remonta, através de pistas que dividem o palco, duas ruas cariocas, a Rua do Catete e a Avenida Prado Júnior.  O início da peça é marcado por uma comédia atrevida, quase deslavada, que traz a história de dois casais.

Ao final da segunda história, um atropelamento acontece com uma das personagens, fato que funciona como um divisor de águas da peça. A partir do acidente, o tom das histórias muda e o drama ganha vez.

O ápice da tragédia se dá com o suicídio de “Rosany”. A personagem aparece, no final da história, com o pescoço amarrado por uma corda presa ao teto. Embora a diferença se marque nas interpretações, o cenário dá uma homogeneidade à narrativa juntando todas as histórias.

A iluminação, no entanto, maltratou até mesmo as pessoas que estavam mais próximas do palco. Em uma das cenas, uma personagem caminha pelo palco para mostrar seus dentes de ouro. Não fosse pelo texto e pela interpretação, ninguém saberia que se tratava de ouro.

Outras questões internas parecem não funcionar bem durante a peça, por se tratarem de questões muito locais. É o caso da placa com os nomes das duas ruas do Rio de Janeiro, que remetem ao contexto das histórias contadas.

Serviço

Texto: Jô Bilac
Direção: Nirley Lacerda
Grupo: Fragmento
Cidade: Rio de Janeiro – RJ
Local: Cine Teatro Ópera – A
Gênero: Tragicomédia
Duração: 80 minutos
Classificação: 16 anos

Letícia Queiroz