Manifesto artístico ressalta defesa da tolerância

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Entre metáforas e ironias, personagem da Cia Teatral Um e Outro interpreta uma pastora “impostora, progressiva e inclusiva”
As noites de segundas-feiras do Festival de Teatro (Fenata), ao longo das edições do evento, não têm tradição de lotar o Cine Ópera. Mas a expectativa com a apresentação da peça “Amém”, da Cia Teatral Um e Outro, de Araçatuba (SP), deve ter motivado algumas das mais de 500 pessoas que fizeram fila para entrar no local, neste 11 de novembro. E, pela lenta saída do teatro, ao final da apresentação, é possível que a provocação gerou reflexão sobre o direito de expressão humana.
Segurar um espetáculo ‘solo’, dialogando apenas com personagens imaginários, não é tarefa fácil no teatro, principalmente quando se discute temas polêmicos, e é preciso ‘segurar’ o público durante toda a peça (mais de uma hora). No papel da pastora Clara, “impostora, progressiva e inclusiva”, a única líder da Igreja Municipal Progressiva da Seiva Divina”, Laerte Silva Junior conta mais que uma história. Entre um diálogo com personagens imaginários, onde se destaca a ‘Xaninha’, a Pastora Clara mantém o público atento, com uma dicção clara, força de expressão e sempre provocativa.
No palco, montado na forma de um ‘santuário’ religioso, estão dispostos mais de 30 pratos que contêm a seiva divina (o leite, em suas mais variadas formas e nomeações), uma bíblia fechada com um cadeado (“para que as palavras não fujam”, diz Clara), uma banheira infantil, quatro bolas grandes e um liquidificador, objetos que são estrategicamente indicados pela iluminação, que integra e auxilia na movimentação e domínio do espaço que a personagem revela.
Foto: Lucas Feld

Foto: Lucas Feld

Homossexualismo e aborto, lembrados pela intolerância do padrasto fundamentalista que não suporta o filho gay marcam os relatos autobiográficos da Pastora Clara, intercalados por projeções (ao fundo do palco) com cenas de filmes, imagens e situações que atualizam as reflexões em torno do preconceito e da hipocrisia de alguns grupos religiosos. “As palavras são como partes de nosso corpo, algumas são proibidas”, diz, em referência aos tabus e expressões moralmente construídas e mantidos por representações sociais, em diálogo com partes da bíblia, que seriam mal interpretados, de acordo com a Pastora. Mas, pelas palavras de Silva Junior, o espetáculo não é uma crítica à religião e a deus, mas “ao que o homem faz com deus e com a religião”.
A explicação do ator, no debate pós-apresentação, sintetiza a motivação da peça.: “o espetáculo surgiu da necessidade de me posicionar, como cidadão e homossexual”, diz Silva Junior, também responsável pela pesquisa que resultou no texto e pela interpretação nos 75 minutos de duração (incluindo os cinco minutos iniciais, em que o ator fica de costas para o público, como se estivesse rezando).
Enfim, se considerar os comentários de muitos frequentadores do teatro e dos próprios debatedores (que também integram a comissão avaliadora), “Amém” revela algumas apostas de que pode integrar a lista de peças premiadas no Fenata 2013.
Sérgio Gadini
Serviço:
Grupo: Cia. Teatral Um e Outro – Araçatuba – SP
Duração: 75 minutos
Diretor: Alexandre Melinsky
Autor e roteiro: Laerte Silva Junior
Operador de som: Anselmo Ricardo SIlva
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One Comment to “Manifesto artístico ressalta defesa da tolerância”

  1. HomossexualISMO ?? Acho que é justamente a referência como doença sobre uma condição de um ser humano que o artista não quer como mensagem da peça.

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