Archive for Novembro 10th, 2011

10/11/2011

As duas faces

A peça Tartufo, revela o sensato e malandro de suas personagens e até o lado musical de seus artistas

O que um nome como Tartufo pode representar? Um vigarista, um pastor, um sedutor de mamães, filhinhas e vovós, ou tudo isso junto? Só assistindo a peça “Tartufo”, do Grupo Farsa, para descobrir que é a terceira opção. A peça faz parte da trilogia “As três batidas de Molière”, iniciada pela trupe com a encenação “O Avarento”, vencedor do 38º Fenata, com o prêmio de Melhor Espetáculo pelo Júri Popular.
A peça do quinto dia de apresentações no palco adulto do Fenata 2011 lotou o Cine Teatro Ópera. Às 20h 30 a fila para quem não tinha comprado o ingresso dobrava a esquina quase alcançando a rua Dr. Colares, Centro de Ponta Grossa. Os ingressos esgotaram, quem ficou para fora perdeu um divertido e intrigante espetáculo.
A peça faz uma crítica à crença cega em seres humanos que se dizem milagrosos. Aos que se aproveitam da bondade dos devotos para se dar bem. Faz pensar sobre as situações em que preferimos uma doce mentira a uma amarga verdade. A avó da família e seu filho compartilham da devoção pelo “santo pastor” Tartufo. Ela inicia com um discurso que deflagra as impurezas de cada um da família: neta, nora, empregada, cunhado menos do religioso, o mais novo morador da casa. Imponente e sem papas na língua solta palavrões no meio das frases, que inserem humor, o qual dura por toda a peça. Logo após o falatório da “sensata” vovó uma música entoada pela banda dá um susto na platéia. A partir daí percebe-se o tom que a peça vai caminhar.
Sobre a intervenção da música nas cenas um destaque para a banda formada especialmente para a peça: “Rímel in Color”, tocada e cantada pelos próprios atores. Bateria, violão e teclado são guardados por uma cortina branca ao fundo do palco. Compõe também as cenas musicais um coral, vestido a rigor, para o becking vocal dos cantores, que variam dependendo da música.
A primeira aparição de Tartufo em cena é emblemática. Por ser um símbolo religioso nada mais correto do que uma celebração para anunciá-lo. A banda toca algo como um hino de louvor e o homem, de terno branco, surge e manda algumas pupilas recolher o dízimo dos devotos. Algumas pessoas da platéia fazem literalmente uma doação, algo comum no final das peças de rua, momento conhecido como “passar o chapéu”. O ator se aproveita da situação e reclama da “esmola” arrecadada. “Depois eu que sou o avarento” condena o pastor, fazendo uma feliz recordação com a peça encenada no Fenata o ano passado, firmando uma identidade com o público do festival, que cai na gargalhada.
A interação entre atores e elementos cênicos chama a atenção, tanto com a luz, como a música e objetos em cena. A iluminação, como de costume, contribui na delimitação de espaços do palco. No entanto a percepção dos atores sobre esse poder é inédita. Em um momento que pai quer conversar a sós com a filha ele grita: “Iluminação, me ajuda aqui”. Então um foco de luz é lançado sobre os dois, o resto fica no breu excluindo a empregada intrometida.
Nas primeira cenas percebe-se o figurino arcaico (padronizado pelas cores preto branco e cinza) que encaixa com o linguajar das personagens, que usam pronomes como vós e tu, transportando os espectadores para outra realidade. Em contraste palavrões e roupas íntimas aparecem repentinamente, assustam e fazem rir. Também as cores da roupa de Tartufo (que tinge o terno, camisa, gravata e até o sapato) não são escolhidas por acaso. Enquanto ainda é um “santo” usa branco, quando se rebela veste uma cor vermelho sangue que embute inúmeras simbologias.
Maria Fernanda Teixeira