O pequeno notável e a caixa de areia

Peça de abertura do 39º Fenata enche o palco com 12 atores, mas só um se destaca

‘Miguilim’, de autoria original de Guimarães Rosa, foi a apresentação de abertura da mostra competitiva do 39º Festival Nacional de Teatro (Fenata). Adaptada por Edson Bueno, a peça foi interpretada pelo grupo ‘Tanahora’, da PUC/PR, que é formado por alunos de diferentes faculdades, não só de artes cênicas.

A peça narra o drama de uma família do sertão mineiro que vive em condições áridas, que não deixam espaço para sonhos ou mudanças de vida. Para quebrar com a inércia, ‘Miguilim’, interpretado por Tiago Galan Mazurkevic, de apenas nove anos, é o garoto sonhador que vislumbra mudanças para sua realidade. A condição de sonhador é constantemente oprimida pelo pai autoritário e pela pressão de ter que levar uma vida semelhante a dos irmãos e das pessoas que o cercam.

O espetáculo usa canções onde os atores fazem um coro na frente do palco, enquanto uma viola harmônica toca ao fundo, e também batuques feitos pelos próprios personagens, usando como instrumentos de percussão ferramentas da roça, como inchada, pá e tocos de madeira. Enquanto isso se desenrola a história de ‘Miguilim’, em um cenário formado por uma caixa de areia, tocos de madeira, arbustos de árvores, um pano branco ao fundo e muitos atores, no total 12.

A quantidade de atores não atrapalha o desenrolar da peça, mas o que dificulta o entendimento da história é o fato de todos os personagens ficarem o tempo todo no palco, enquanto três ou quatro atuam, os outros formam o cenário, se movendo lentamente em direções diferentes, outros ainda ficam sentados ou deitados. Além disso, diálogos longos e extensos, por vezes incompreensíveis, dificultam e muito o entendimento de algumas cenas, que ficam longas e maçantes.

O sonho e a força de vontade de ‘Miguilim’ parecem ter inspirado Tiago Galan Mazurkevic, que fez uma interpretação notável. Com apenas nove anos, o garoto atuou durante toda a peça, que teve exatamente 70 minutos, e encantou o teatro com um humor natural e inocente, que causou riso e trouxe vida para a peça.

Tiago enfrentou o Teatro Ópera cheio e se portou exemplarmente no palco. Com um sotaque muito parecido com o adequado para o personagem, falou praticamente durante toda a peça e prendeu a atenção do público com diálogos cheios de vida e envolventes. No entanto, a disposição dos atores no palco e o uso de diálogos longos e, para alguns, incompreensíveis, prejudicou o rendimento final do espetáculo. O que marcou do início ao fim, foi o próprio ‘Miguilim’, interpretado pelo pequeno notável Tiago Galan Mazurkevic.

Afonso Verner

Foto: Marco Favero

Mais Fotos: flickr.com/lentequente

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