Archive for Novembro 5th, 2011

05/11/2011

A estrada vai além do que se vê

Grupo Sonhus Teatro Ritual prendeu atenção da platéia com espetáculo sobre formação da identidade cultural em ‘Às dez em cena’ da primeira noite do Festival

Uma pequena névoa e um suave odor de incenso tomavam o auditório B, enquanto no palco, todo recoberto por tecidos alvos, duas figuras revestidas com roupas brancas e o corpo curvado já estavam posicionadas. A primeira tarefa foi encontrar um lugar para se sentar: com os 141 lugares do auditório ocupados, dois expectadores acomodaram-se nos degraus do local. Como todo ser humano em estado de curiosidade, os expectadores não paravam de falar enquanto se organizavam em seus assentos, porém ao notar as duas presenças no palco perceberam que o silêncio deveria vir da própria platéia. Foi o sinal para que as luzes baixassem, o som ecoasse e o espetáculo tivesse início.

            “Travessia parte II: De tão longe venho vindo” despertou a curiosidade e instigou os sentidos da platéia que, silenciosa, assistia dois corpos se movimentarem no ritmo da respiração humana. Em média, a peça apresentou sete sequências que se alternavam entre a presença de um ou dois intérpretes. Em geral, uma nova sequência era anunciada por uma escuridão total, música suave e a movimentação dos dois corpos no ritmo da respiração humana. O espetáculo foi conduzido por dois atores que utilizaram expressão corporal e facial para dar vida à estrada que cada ser humano percorre em sua existência.

A peça tentava identificar os processos de formação cultural do homem e, para tanto, se valeu de elementos cênicos que foram imprescindíveis na compreensão do todo: vestimenta branca e dos tecidos sobrepostos pelo palco, elementos como dois círculos de madeira que reproduziam um som particular semelhante a chuva com fortes rajadas de vento, duas luminárias antigas, pequenas fitas e uma rosa vermelha, os únicos objetos coloridos que entraram em cena.

Outro elemento que merece atenção especial é a iluminação. Os jogos de luzes produzidos por holofotes – à direita, em frente e acima do palco – realizaram uma projeção de sombras ousadas, como se em determinados momentos o espetáculo quisesse falar: “preste atenção nas sombras”. Também foi com o auxílio do jogo de luzes que a peça ganhou mais atores. Enquanto realizavam movimentos que representavam força, as sombras projetadas na parede davam à platéia a impressão de ter não apenas dois, mas oito personagens em cima do palco.

Além da iluminação, a trilha sonora não deixou nada a desejar. As músicas, maioria instrumentais, deram um tom intrigante. Mas, próximo ao final da apresentação, uma música em que se podia distinguir vozes cantando em um ritmo de ação de graças quebrou a tensão e inspirou uma sensação final de leveza… a parte do caminho em que se apressar não é mais necessário, mas andar devagar analisando o belo é a essência.

Durante 55 minutos e sem nenhum diálogo, o espetáculo prendeu a atenção da platéia que lotou o auditório B do Cine Teatro Ópera, em certos momentos o único som que se ouvia era o do diafragma das câmeras que capturavam cada cena. O espetáculo provocou as mais variadas sensações: solidão, encantamento, apreensão, provocação. O fim da apresentação foi anunciado por uma escuridão total, assim como no início. As sonoras palmas e alguns expectadores em pé identificaram a aprovação de grande parte do público que assistiu ao primeiro espetáculo de “Às dez em cena” do Fenata 2011.

Marina Alves

Foto: Marco Favero

Mais Fotos: flickr.com/lentequente

Serviço:

Espetáculo: Travessia parte II: De tão longe venho vindo

Autor: Pablo Angelino da Silva

Orientação: Tadashi Endo

Direção Arte: Pablo Angelino da Silva

Grupo: Sonhus Teatro Ritual

Cidade: Goiânia-GO

Duração: 55minutos

Classificação: 12 anos

05/11/2011

O pequeno notável e a caixa de areia

Peça de abertura do 39º Fenata enche o palco com 12 atores, mas só um se destaca

‘Miguilim’, de autoria original de Guimarães Rosa, foi a apresentação de abertura da mostra competitiva do 39º Festival Nacional de Teatro (Fenata). Adaptada por Edson Bueno, a peça foi interpretada pelo grupo ‘Tanahora’, da PUC/PR, que é formado por alunos de diferentes faculdades, não só de artes cênicas.

A peça narra o drama de uma família do sertão mineiro que vive em condições áridas, que não deixam espaço para sonhos ou mudanças de vida. Para quebrar com a inércia, ‘Miguilim’, interpretado por Tiago Galan Mazurkevic, de apenas nove anos, é o garoto sonhador que vislumbra mudanças para sua realidade. A condição de sonhador é constantemente oprimida pelo pai autoritário e pela pressão de ter que levar uma vida semelhante a dos irmãos e das pessoas que o cercam.

O espetáculo usa canções onde os atores fazem um coro na frente do palco, enquanto uma viola harmônica toca ao fundo, e também batuques feitos pelos próprios personagens, usando como instrumentos de percussão ferramentas da roça, como inchada, pá e tocos de madeira. Enquanto isso se desenrola a história de ‘Miguilim’, em um cenário formado por uma caixa de areia, tocos de madeira, arbustos de árvores, um pano branco ao fundo e muitos atores, no total 12.

A quantidade de atores não atrapalha o desenrolar da peça, mas o que dificulta o entendimento da história é o fato de todos os personagens ficarem o tempo todo no palco, enquanto três ou quatro atuam, os outros formam o cenário, se movendo lentamente em direções diferentes, outros ainda ficam sentados ou deitados. Além disso, diálogos longos e extensos, por vezes incompreensíveis, dificultam e muito o entendimento de algumas cenas, que ficam longas e maçantes.

O sonho e a força de vontade de ‘Miguilim’ parecem ter inspirado Tiago Galan Mazurkevic, que fez uma interpretação notável. Com apenas nove anos, o garoto atuou durante toda a peça, que teve exatamente 70 minutos, e encantou o teatro com um humor natural e inocente, que causou riso e trouxe vida para a peça.

Tiago enfrentou o Teatro Ópera cheio e se portou exemplarmente no palco. Com um sotaque muito parecido com o adequado para o personagem, falou praticamente durante toda a peça e prendeu a atenção do público com diálogos cheios de vida e envolventes. No entanto, a disposição dos atores no palco e o uso de diálogos longos e, para alguns, incompreensíveis, prejudicou o rendimento final do espetáculo. O que marcou do início ao fim, foi o próprio ‘Miguilim’, interpretado pelo pequeno notável Tiago Galan Mazurkevic.

Afonso Verner

Foto: Marco Favero

Mais Fotos: flickr.com/lentequente