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19/03/2011

Quem tem medo de fazer crítica?


Na leitura dos textos da primeira edição 2011 do blog Crítica de Ponta, dois aspectos se destacam claramente quanto aos problemas ou acertos das produções textuais. O primeiro aspecto está nas questões técnicas, que embora possam parecer irrelevantes aos olhos dos jovens críticos, posteriormente podem não somente trazer prejuízos aos seus textos, como podem também confundir a cabeça dos fiéis leitores.

Quando no texto O Rock Rural de Rafael Castro a autora fala sobre “um rock rural, meio folk, único e político”, parece fluir facilmente dentro da cabeça da mesma, que a música folk é um estilo que aflorou em meados dos anos de 1960 e que resultou na expansão de artistas como Bob Dylan, Simon & Garfunkel e posteriormente uma gama de novos nomes. Porém, quais garantias de que os leitores sabem disso? É obrigação do crítico, antes mesmo de se aventurar pelo campo das afirmações, aceitações ou de criticar a obra em si, situar o leitor quanto o tema tratado.

Outro problema que afeta não apenas este como os demais textos do blog está no uso excessivo de informações técnicas, como datas, preços e locais. Não que esse tipo de dados não possa ser explorado dentro de um texto opinativo, o problema está na forma como as informações são inseridas. É como se o autor interrompesse seu texto, para que abruptamente anunciasse que, por exemplo, “aquela pintura detalhista repleta de nuances que reinterpretam um estilo do século XVII custa X reais” e só depois prosseguir com o texto. É muito seco, desnecessário e deselegante. Para isso usem o serviço ao término do texto, afinal, esta é a real utilização dele.

Entende-se também que crítica não é um texto informativo, mas sim opinião. Em ‘Poesia de Ponta’ invade cidade e movimenta cenário cultural a impressão final é a de que estamos lendo uma nota feita pelas entidades que organizam o evento, tudo muito técnico e cru. Mas tudo isso talvez venha do segundo aspecto perceptível na leitura dos textos: o medo.

Em todos os trabalhos há pavor na escrita, como se os autores tivessem pânico em receber um comentário ruim sobre seu texto, como se fosse momentaneamente vigiado por uma entidade controladora que castra suas palavras, produzindo algo quadrado e sintético demais. O despertar da consciência através do sonho, por exemplo, é uma boa crítica, porém fica o tempo todo no ‘quase’. Soltem-se mais, brinquem com as palavras, fujam dos padrões e dos tradicionalismos, se vocês gostaram do produto analisado, então o elogiem (desde que com justificativa) e se não gostaram, não sintam medo em dizer o quanto tal disco/livro/espetáculo é desagradável (sempre se valendo de justificativas plausíveis).

Quando Daniel Piza diz em seu livro Jornalismo Cultural, que “uma função básica da crítica é, sim, julgar, no sentido de fazer uma opção pessoal, de qualificar uma obra em escala (de péssimo a excelente), e o leitor que concorde ou discorde” ele está corretíssimo. Vocês são os ‘juízes’, julguem, critiquem e não sintam medo. Antes serem lembrados por uma crítica ferrenha, porém coerente, do que por fazer um texto café com leite que logo será esquecido.

 

Cleber Facchi